Rede de Proteção de Jornalistas e Comunicadores

Jornalistas mulheres que cobrem política são as maiores vítimas de ataques

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Em 2021, 89 jornalistas e meios de comunicação sofreram 119 ataques de gênero relacionados ao exercício da profissão de jornalista. As profissionais que mais são vítimas da violência são as que cobrem política

Por: Isabela Alves

Em 2021, 89 jornalistas e meios de comunicação sofreram 119 ataques de gênero relacionados ao exercício da profissão. Isso representa quase 10 casos de agressões, ofensas, ameaças e intimidações por mês. Os dados foram divulgados na plataforma “Violência de gênero contra jornalistas”

O monitoramento realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), com patrocínio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), busca mapear os casos de ataques envolvendo identidade de gênero, sexualidade, orientação sexual, aparência, estereótipos sexistas, e as agressões contra mulheres cis e trans que atuam como comunicadoras. 

O estudo revelou que em 79% dos casos, os ataques possuem o objetivo de difamar e descredibilizar a capacidade intelectual. Leticia Sarmento Kleim, 24 anos, advogada e assistente jurídica na Abraji, aponta que a maioria dos ataques se apoiam no gênero ou na sexualidade da vítima. 

“Na maioria das vezes, o ataque pode ser identificado por um comentário que ataca a moral e a reputação da mulher, ou que seja um comentário LGBTfóbico, por exemplo. Mas também pode ocorrer na forma de um comportamento ou de uma ação, como na violência física e sexual, ameaças de estupro, divulgação ou manipulação de imagens ou até ataques on-line motivados por alguma publicação relacionada ao gênero”, diz Kleim. 

A advogada também aponta que a visibilidade e ocupação do espaço público também são vistos como um dos motivos para os ataques misóginos. Ou seja, além de sofrer com a violação da liberdade de expressão, a agressão busca censurar as jornalistas. “Esses ataques tem uma mensagem implícita de que a mulher não deve ocupar esse espaço que é público e de grande projeção”, diz. 

Em relação ao perfil dos agressores, mais da metade dos casos (51,3%) eram agressores que utilizaram plataformas como o Twitter para perseguir, ofender ou constranger as comunicadoras, seja em relação a sua vida pessoal ou profissional. Em 71,4% dos casos, as agressões se originaram ou tiveram alguma repercussão na internet. 

É válido ressaltar que autoridades de Estado, como vereadores, deputados, senadores e o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), estão entre os principais agressores. Essa categoria corresponde por 36,1% dos casos registrados. 

Mulheres jornalistas recebem o dobro de ataques que colegas homens

Um levantamento produzido pela Revista AzMina e o InternetLab, em parceria com o Volt Data Lab e ao INCT.DD, com apoio do International Center for Journalists (ICFJ), apontou que mulheres jornalistas recebem o dobro de ofensas em seus perfis pessoais no Twitter em relação aos colegas homens. Os dados inéditos foram divulgados em novembro de 2021.

O estudo monitorou 200 perfis de jornalistas brasileiros na rede social. Entre o período de 1 de maio a 27 de setembro, o levantamento detectou 7,1 milhões de tuítes com conteúdo ofensivo em 133 perfis de mulheres jornalistas e 67 homens.

Bárbara Libório, gerente de jornalismo na Revista AzMina e idealizadora dos projetos “Elas no Congresso” e o “MonitorA”, apontou que os ataques a mulheres acontecem principalmente quando a jornalista publica uma informação, reportagem ou opinião do qual as pessoas discordam. 

“O descrédito intelectual é uma questão estrutural machista que se repete em várias outras esferas. Quando a gente olha, por exemplo, a violência política contra mulheres, a gente encontra esse tipo de narrativa de que elas são fracas, loucas, histéricas e de que não são capazes de contextualizar e falar sobre o cenário político”, reflete Libório. 

No topo do ranking das jornalistas mais ofendidas estão Eliane Cantanhêde; Vera Magalhães, apresentadora do programa Roda Viva, colunista no jornal O Globo e comentarista na  rádio CBN; Daniela Lima, apresentadora da CNN; e Miriam Leitão, jornalista de O Globo, TV Globo, Globonews e CBN. 

Além dos ataques que buscam deslegitimar a capacidade intelectual feminina, os ataques também apontam aspectos físicos das profissionais e disseminam informações falsas sobre essas mulheres. 

“Quando o ataque é legitimado por figuras políticas, principalmente quando é o presidente e a sua família, esses usuários se sentem no direito de fazer o mesmo. Eles sempre estão em discordância e isso acaba de fato silenciando esses jornalistas. O tempo que elas gastam tentando se defender, denunciando e passando por toda essa situação violenta, acaba afetando muito a saúde mental dessas profissionais”, conclui. 

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