Rede de Proteção de Jornalistas e Comunicadores

Bolsonaro é o principal agressor de jornalistas, segundo relatório da Fenaj

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O documento também alerta para aumento de violência contra esses profissionais

Por: Gabriela Costa

O presidente Jair Bolsonaro é o maior responsável por agressões diretas contra jornalistas pelo segundo ano consecutivo, de acordo com documento divulgado em janeiro de 2021, pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Ele é o autor de quase 35% de ataques individuais à imprensa, número que abrange casos de descredibilização da imprensa e agressões diretas.

As informações são do relatório “Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2021”, um documento realizado anualmente pela Fenaj com dados coletados pelos Sindicatos de Jornalistas espalhados pelo país.

Em 2021, foram 430 ocorrências de agressões diretas, o que apesar de não ser um crescimento tão expressivo em relação ao ano passado – um aumento de apenas 0,47% – mostra uma constante ao longo dos últimos anos, principalmente depois da eleição do atual presidente. De 2018 a 2019 houve um aumento de cerca de 54% na violência contra jornalistas, e de 2019 para 2020 o salto foi de quase 105%.

Dentre os tipos de agressões monitoradas pelo relatório, a censura foi a que mais se multiplicou, aumentando 65%. Outros casos como atentados, prisões e violência contra sindicatos também se multiplicaram.

Mesmo com números já alarmantes, a presidente da Fenaj, Maria José Braga, acredita que ainda haja subnotificação dos casos e os dados possam ser ainda maiores. “Muitos profissionais ainda não procuraram formalizar as denúncias e não comunicam nem os sindicatos. Em muitos casos a denúncia é desgastante, mas sua importância é coletiva, porque representa a defesa do livre exercício da profissão”, explica. 

Há também o fator logístico para essa subnotificação, porque nem todos os comunicadores possuem registro nos sindicatos e então as agressões que eles sofrem não entram nas estatísticas.

Os principais responsáveis

Além de Bolsonaro, o relatório aponta que a segunda maior quantidade de ataques não é de uma pessoa física, mas sim de uma empresa: a EBC (Empresa Brasil de Comunicação. Essa é uma entidade pública formada por um conglomerado de veículos nacionais que comunicam as atividades e os projetos realizados pelo governo federal.

Os dirigentes da EBC foram responsáveis, sozinhos, por 138 dos 140 casos de censura registrados em todo o país. Como a função da entidade, segundo o relatório, é “implementar localmente as diretrizes da Presidência da República”, diversos jornalistas que trabalham para a imprensa entraram em conflito com seus superiores por conta das matérias que poderiam ou não veicular.

O Distrito Federal 

A região Centro-Oeste foi a que mais registrou ataques à liberdade de imprensa, sendo o Distrito Federal a unidade federativa com maior número de casos do país, representando cerca de 58% do total. 

A coordenadora do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal (SJDF), Juliana Cézar Nunes, afirma que esse aumento nos últimos anos está relacionado com “o fato do Distrito Federal abrigar a capital do país e, portanto, ser o local de trabalho e moradia das lideranças desse desgoverno, que tenta se manter de pé com base em desinformação e fake news.”

A jornalista também acredita que esses ataques vindos de membros do governo buscam descredibilizar a imprensa: “Como essas agressões partem de figuras públicas, elas incentivam outras pessoas, especialmente a rede de apoiadores, a fazer o mesmo.”

Estratégias de combate à violência

De acordo com a presidente da Fenaj, a simples existência do relatório já faz parte de uma estratégia de combate a essa violência, porque funciona como uma denúncia pública. A organização também incentiva desde 2014 a implementação de um protocolo de segurança pelas redações, incluindo a criação de comissões de segurança específicas.

A coordenadora do SJDF afirma que a entidade tem realizado a denúncia pública das agressões cometidas contra jornalistas do local, exigindo a tomada de providências. “Também recorremos ao Ministério Público, ao Judiciário e organismos internacionais. Infelizmente, a resposta, especialmente do sistema de Justiça, não tem suprido nossas expectativas”, explica Juliana Nunes.

Ambas as jornalistas destacaram a importância da sociedade civil e de entidades independentes nessa discussão, já que o governo federal não trabalha para mudar esse cenário. Por esse motivo, iniciativas como a Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores, por onde esses profissionais podem conseguir suporte quando são vítimas de alguma violência, são tão importantes.

Previsões para 2022

Com a crescente no número de casos de violência, a previsão é que no ano de 2022, com as eleições, eles aumentem ainda mais. “Para a FENAJ, os números dos últimos três anos mostram um quadro de insegurança para o exercício da profissão”, afirma Maria José Braga. A jornalista ainda complementa: “Em um ano eleitoral, quando os candidatos ficam mais expostos na mídia, especialmente por causa de denúncias envolvendo suas ações como pessoas públicas, as reações violentas podem ocorrer.”

A coordenadora do SJDF também compartilha desse pensamento: “Quanto mais pressionado, mais o governo tende a reagir com violência a quem revela seu autoritarismo e fracasso. Não tenho dúvidas que a violência contra os jornalistas deve se intensificar, mas vamos reforçar na mesma medida as ações em defesa da nossa profissão e da sociedade.”

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